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Gabriella e Henrique. |
Henrique Lage nasceu no Rio de Janeiro, em 1881. Foi um industrial brasileiro, idealizador de Porto de Imbituba/SC, segundo maior do estado, e fundador da Companhia Docas de Imbituba em 1922. Na mesma cidade também montou uma cerâmica e uma granja, além de uma escola para os filhos dos estivadores que existe até os dias de hoje e leva seu nome. Pioneiro na extração salineira no nordeste do Brasil, já na década de 1920 mandou sondar a existência de petróleo em Campos dos Goytacazes. Casou-se com a cantora lírica italiana Gabriella Besanzoni e foi proprietário do Parque Lage, localizado aos pés do Morro do Corcovado no Rio de Janeiro.
Logo se interessa pela aviação, e em 1935 cria a CNNA - Companhia Nacional de Navegação Aérea, que foi a primeira fábrica de aviões no Brasil. A fábrica iniciou suas atividades no Campo dos Afonsos, mudando-se em seguida para a Ilha do Viana, também no Rio de Janeiro.
Após algumas experiências na construção de planadores, a CNNA contrata o engenheiro belga René Vandeale e o desenhista francês Del Carli para serem os responsáveis pela produção em série dos aviões da série Muniz. Os desenhos eram do oficial da Aviação Militar Antonio Guedes Muniz.
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Antonio Guedes Muniz. |
Entre os anos de 1936 e 1944 foram produzidos 26 modelos Muniz M7, sendo 8 destinados a aviação militar e 18 para o uso na formação de pilotos civis, nos aeroclubes, e mais 40 unidades do modelo M9, que diferia do M7 apenas na potência do motor e capacidade de combustível, além de um nariz maior devido ao tamanho do motor.
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Modelo Muniz M7 |
Segundo registros, cinco M9 foram exportados para Argentina, Paraguai e Uruguai. Os motores nos primeiros exemplares eram os ingleses De Haviland Gipsy de 200 cavalos, mas devido ao início da Segunda Grande Guerra, a Inglaterra fica impossibilitada de exportar motores aeronáuticos, passando a CNNA a usar os motores norte-americanos Ranger. O último projeto de Guedes Muniz foi o M11, também um treinador primário, biplano.
Ainda em 1940, a empresa passa a dedicar-se ao projeto de um novo avião, destinado especificamente ao treinamento civil em aeroclubes. O modelo é uma cópia do Piper Cub norte-americano e recebe as iniciais do empresário, HL-1. O Presidente da República, Getúlio Vargas, tem como meta a formação de 3.000 pilotos civis, que seriam a reserva da Força Aérea do país. O HL-1 vende mais de 100 unidades, dando à CNNA um grande fôlego. Na verdade as empresas de aviação dependiam do governo para se manterem vivas, pois o comércio a particulares ainda era muito pequeno, quase inexistente.
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O HL-1. |
A primeira “ducha de água fria” na indústria nacional, e consequentemente na CNNA, foi à montagem no Brasil de aeronaves estrangeiras sob licença. Já em 1942 chegam ao país mais de duzentos PT-19 Fairchild, fabricados nos Estados Unidos e que ganham a designação brasileira 3FG, por ser o terceiro modelo a ser montado na Fábrica do Galeão. Uma encomenda desse porte feito a CNNA teria impulsionado a indústria brasileira, incentivando e financiando inclusive o projeto de novos modelos.
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Um PT-19. |
Alguns modelos foram projetados e construídos pela CNNA, mas nunca fabricados em série. Um deles foi o HL-2. Projetado para o transporte de até seis passageiros, o modelo possuía asa baixa e motores de 130 ou 200 cavalos. Já o HL-3 teve seu projeto realizado em apenas um dia, sob responsabilidade do engenheiro René Vandeale, para que a empresa participasse de uma concorrência pública. Chegou a voar, mas também não foi fabricado em série. O modelo HL-8 foi projetado para o transporte de carga, com capacidade de uma tonelada, e apesar de realizar testes por mais de um ano, também não foi comercializado.
Um outro modelo, o HL-6B teve 39 exemplares fabricados. Era um modelo treinador de dois lugares, asa baixa e um motor de Lycoming de 290 cavalos. Ficou conhecido como Carué.
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HL-06. |
A segunda “ducha de água fria” na indústria de aviação nacional, veio logo depois de finda a Segunda Guerra Mundial. Os norte-americanos produziram uma quantidade enorme de aeronaves durante o conflito, que passaram a vender literalmente a “preço de banana” aos países amigos, o que foi decisivo para um enfraquecimento ainda maior das indústrias brasileiras.
A política de governo adotada então, não proporcionava em nenhum aspecto o crescimento da indústria de aviação brasileira, e até mesmo os poucos técnicos especializados começaram a migrar para outros setores de atividade econômica, por não terem perspectivas de melhoras.
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Apresentação oficial do Muniz M-7 no Campos dos Afonsos. |
Em 1948 a empresa não tem encomendas e pede ao governo a compra de dez aeronaves, para não ser obrigada a fechar suas portas. Seu pedido não é atendido então a 30 de novembro de 1948, a CNNA encerra suas atividades, deixando um legado de 234 aeronaves vendidas, entre os modelos Muniz e HL, e entrando para a história como a primeira fábrica de aviões a produzir modelos em série, em solo brasileiro.